sábado, 3 de junho de 2017

ATACAR OS CRIMES DE FRONTEIRA

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ZERO HORA 03 de junho de 2017 | N° 18862


ENTREVISTA: Delegado Federal RICARDO ANDRADE SAADI


“Temos de atacar os crimes de fronteira”




Combater lavagem de dinheiro é a baliza da bem-sucedida carreira do delegado Ricardo Andrade Saadi, novo superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. Natural que o combate a esses e outros tipos de delitos de “colarinho branco” sejam sua prioridade na gestão, a primeira de sua carreira chefiando a PF num Estado.

– O Rio Grande do Sul tem peculiaridades como o contrabando e o tráfico, por ser Estado de fronteira, mas vamos dar atenção especial aos crimes financeiros – adianta Saadi, que tomou posse na sexta-feira.

Paulista, 41 anos, o delegado é formado em Direito e Economia e doutor em Direito Político e Econômico. Na sua tese, abordou a destinação dos bens apreendidos com criminosos e a necessidade de agilizar esse processo – inclusive dinheiro enviado à educação de presos –, antes que os objetos apodreçam sem uso.

Saadi é da nova geração de policiais. Ingressou na PF, já como delegado, em 2002 e foi direto trabalhar contra crimes financeiros, em São Paulo, quando o superintendente era o gaúcho Leandro Daiello, hoje diretor-geral da PF. Fez curso no FBI (polícia federal dos EUA) e participou de episódios famosos: prendeu o dono do Banco Santos por lavagem de dinheiro, refez o inquérito da Operação Satiagraha (que capturou o banqueiro Daniel Dantas), investigou lavagem de dinheiro pelo traficante colombiano Juan Carlos Abadia (preso no Brasil e suspeito de mais de cem homicídios) e atuou na Lava-Jato. Nesse último e famoso caso, atuou como chefe do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça, onde permaneceu até o início de 2017.

Foi na convivência com policiais gaúchos, em São Paulo, que adquiriu o hábito de tomar chimarrão. E foi entre goles do amargo que recebeu Zero Hora para uma entrevista, realizada na quinta-feira em seu novo gabinete em Porto Alegre. Apesar do gosto pelo mate, não é gremista e nem colorado: é são-paulino, avisou, em meio a sorrisos dos assessores.

Veja os principais pontos abordados na conversa

LIÇÕES DA SATIAGRAHA

“Convivi muito com o Protógenes Queiróz (delegado que prendeu o banqueiro Daniel Dantas por movimentação financeira oculta e, posteriormente, caiu em desgraça na PF – o policial foi condenado e hoje está foragido). Uma das lições daquele episódio é o de saber o momento certo de deflagrar uma operação e ter elementos concretos. Não se pode agir com pouquíssimas provas. Baseado apenas em um HD apreendido, por exemplo. Aprendemos muito com aquele inquérito, conseguimos coisas boas.”

RASTREAMENTO DE DINHEIRO SUJO

“Antes dos anos 2000 não existia o Cadastro Único dos Correntistas do Banco Central. Quando precisava saber onde alguém tem conta, mandava um ofício para cada instituição financeira e esperava meses, por exemplo. Hoje, graças a convênios entre instituições de controle do sistema financeiro, consigo a informação na mesma hora. O mesmo acontece com a quebra de sigilo bancário: antes eu trabalhava numa sala recheada do chão ao teto por planilhas Excel com extratos de contas. Agora recebo isso online e, mediante determinados programas, identifico padrões de saque bancário do suspeito, remessas, etc. A PF, aliás, tem laboratórios técnicos de lavagem de dinheiro, um deles montado por iniciativa própria no RS e equipamentos comprados.”

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

“A legislação determina que o dinheiro de lavagem só seja devolvido após trânsito em julgado (condenação do réu em última instância). Mas ocorreram duas mudanças, para melhor. A primeira é que, via colaboração premiada, delatores têm autorizado por escrito ao governo a devolução de dinheiro que eles mantêm no Exterior (Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, devolveu US$ 100 milhões mediante acordo). A outra é que os próprios países onde o dinheiro foi colocado têm aberto investigações contra os criminosos brasileiros que lá escondem o fruto do desvio da verba pública. É o caso de dinheiro desviado por um juiz durante a construção do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) paulista e da Operação Anaconda (venda de sentenças por parte de outro magistrado). A Suíça abriu processo contra os brasileiros envolvidos e devolveu parte do dinheiro lavado em seus bancos pelos criminosos, antes de os processos no Brasil serem finalizados. Isso foi impulsionado pela cooperação internacional, sobretudo após os atentados de 11 de Setembro de 2001 (em Nova York).”

META PARA O RS

“Nosso objetivo é manter o ótimo trabalho que tem sido feito. O Estado tem peculiaridade de ter muitas fronteiras, então temos de atacar todos os crimes típicos de fronteira, como tráfico de drogas, tráfico de armas e contrabando, e dar atenção especial aos crimes de desvio de recurso públicos, crimes financeiros e de lavagem de dinheiro. O Rio Grande do Sul foi o Estado que mais operações da PF teve em 2016: 71. Queremos manter a performance e, para isso, pedimos um estudo de efetivos policiais, para direcioná-lo aonde for melhor.”

LAVA-JATO NO RS

“Está chegando em novo estágio em que os procedimentos estão sendo distribuídos a diversos Estados. O Rio Grande do Sul, assim como outros Estados, vai receber esses procedimentos. Nós temos uma equipe extremamente qualificada, que está pronta para resolver essas investigações da melhor forma possível.”

REFLEXOS DA LAVA-JATO PARA O PAÍS

“Está sendo extremamente positiva. Tem demonstrado que as instituições brasileiras funcionam, a Polícia Federal, o Ministério Público, a Receita Federal e outras. As delações geraram uma demanda exponencial de investigações. E tem sido positivo para o país ver esse trabalho.”

domingo, 12 de março de 2017

FRONTEIRA AMAZONICA VIRA PASSAGEM LIVRE DE DROGAS







FOLHA.COM -  Fronteira amazônica vira passagem livre de drogas com presença de facção

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A TABATINGA (AM)12/03/2017 02h00




O massacre de dezenas de presos protagonizado pela facção criminosa Família do Norte (FDN) em Manaus, no Ano-Novo, gerou uma onda de mortes e tensão em diversas penitenciárias do país.
Mas, na principal porta de entrada de cocaína para o Norte e Nordeste, o presídio local permaneceu quieto, sob controle dessa mesma facção.

Em Tabatinga, cidade de 62 mil habitantes na tríplice fronteira com Peru e Colômbia, autoridades policiais e judiciais admitem que a FDN comanda tanto o presídio quanto o fluxo de drogas para o Brasil, um negócio que movimenta R$ 5,7 bilhões por ano, segundo estimativa do governo do Amazonas.

"Se a Família do Norte, a única facção que domina aqui, decidir que precisa haver algum incidente em Tabatinga, esse incidente ocorrerá", afirmou a juíza estadual Danielle Monteiro, na cidade há um ano e cinco meses, durante um encontro para discutir a segurança pública com representantes militares, policiais e judiciais.

A forte presença da FDN em Tabatinga, pelo menos desde 2014, é o mais novo capítulo de quase quatro décadas de narcotráfico na região, período em que se tornou a principal atividade econômica da fronteira.


A história começou no início dos anos 1980, quando a chamada região do Trapézio Amazônico se tornou um importante corredor da coca peruana à Colômbia (da era Pablo Escobar) para o refino e envio aos EUA.

Em meados dos anos 2000, houve mudanças importantes. A Colômbia, com financiamento americano, conseguiu retomar o controle da maior parte do território, como a região fronteiriça, e reduzir a violência.

No lado peruano, uma nova tecnologia permitiu o cultivo e o processamento da coca na umidade amazônica a partir de 2006. E o Brasil, antes de importância marginal, passou a ser o principal destino da droga produzida e transportada na região da tríplice fronteira.

Apesar do desafio logístico -o acesso à tríplice fronteira se dá apenas por avião ou barco-, o narcotráfico se beneficia da economia informal, da intensa circulação de pessoas entre os três países, das diversa rotas fluviais disponíveis, da ausência do Estado no lado peruano e de grandes falhas de fiscalização no território brasileiro.

Unida à colombiana Leticia pela fronteira seca, Tabatinga vive na informalidade. Sem Detran, cerca de 90% das 15 mil motos que circulam pela cidade não têm nenhum registro, segundo a Polícia Militar.

Na Justiça estadual, tramitam em Tabatinga 2.752 processos criminais, com 751 condenações, em uma cidade em que o presídio tem capacidade para 108 pessoas.


INSUFICIÊNCIA


Integrantes das equipes de segurança brasileiras na região da tríplice fronteira reconhecem sua insuficiência diante do aumento da criminalidade organizada.

O principal posto de fiscalização fica em um trecho do rio Solimões a cerca de 40 km de Tabatinga. Trata-se de uma força multitarefa, com a presença permanente de 33 pessoas, entre PMs, soldados do Exército, policiais civis e agentes da PF, responsáveis pela coordenação.

A principal tarefa ali é uma minuciosa inspeção em todos as embarcações que descem o rio na direção de Manaus. Mas a base, estática, é facilmente contornável pelos braços de rio ("furos"), principalmente na cheia.

Além disso, a presença da base deslocou o narcotráfico para outros rios que vêm da Colômbia e do Peru, principalmente o Içá, hoje o principal corredor.

No dia em que a reportagem da Folha visitou a base, a balsa do Exército, que deveria ficar na outra margem, estava anexada à da PF por falta de combustível para o gerador elétrico. Tampouco havia barcos blindados de patrulha: o único que a PF mantém na região estava parado havia um ano.

"A gente teria de ter duas embarcações blindadas e um maior efetivo policial", disse o agente da PF Rosimar Sena, em entrevista na base Anzol. "São muitos 'furos', tem de dar sorte de estar passando na hora certa. Mas aqui se pega o mínimo de droga."

Das 3,5 toneladas de cocaína apreendida pela PF no Amazonas no ano passado, 600 kg foram confiscadas na região de Tabatinga.

"A base Anzol, para quem é do mundo criminoso, não deixa de ser motivo de piada", disse o comandante da PM em Tabatinga, Huoney Herlon Gomes. "É boa como presença do Estado, mas inócua como ação efetiva."

Editoria de arte/Folhapress