domingo, 10 de dezembro de 2017

FRONTEIRA DESPOLICIADA. FALTAM ESTRUTURA E EFETIVOS




Falta de efetivo é o principal problema nas fronteiras do RS


Por RBS TV
09/12/2017

Poucos funcionários e postos fechados colocam em risco as fronteiras gaúchas. Policiais confirmam falta de estrutura e de efetivo na fronteira com a Argentina. Resultado é a prevalência de crimes como tráfico de drogas e armas na região.


A falta de fiscalização põe em risco as fronteiras gaúchas. Com postos fechados e poucos funcionários, as estradas gaúchas da região evidenciam a facilidade de circular entre um país e outro.


Em Quaraí, cidade localizada na fronteira do Brasil com Artigas, no Uruguai, o fluxo de veículos e pessoas é praticamente livre. No posto de fiscalização, apenas dois plantonistas acumulam funções: além da emissão da entrada e saída de turistas, eles ainda têm tarefas de polícia administrativa, como emissão de certidões de antecedentes criminais e confecção de carteira de estrangeiros.


Um policial, que pede para não ser identificado, confirma a situação. "A gente tem uma defasagem tanto em quantidade de efetivo, que estaria lotada, nas delegacias de fronteira, quanto também ao que se refere à rotatividade do pessoal", disse à reportagem da RBS TV.


Em São Borja, a situação é semelhante. Na fronteira do município com Santo Tomé, cidade da Argentina, os policiais contam que trabalham desarmados e sem poder de polícia. A Delegacia da Polícia Federal, que poderia ser um reforço, fica a 10 quilômetros. E eles também reclamaram da falta de efetivo para combater o tráfico de drogas e armas que cruzam a fronteira.

"A Argentina acabou virando um corredor de passagem da maconha, da cocaína, das armas e das munições do Paraguai e da Bolívia", diz um policial do local, que também não será identificado.


Já em Uruguaiana, cerca de 1 mil carros cruzam a ponte internacional, muitos dos quais não passam pela fiscalização.


A situação é pior na Região Noroeste da fronteira, onde portos informais funcionam normalmente sem qualquer fiscalização. Isso porque, por falta de recursos, há quatro anos a polícia resolveu tirar os funcionários do posto de fiscalização entre o Porto Vera Cruz e Panambi na Argentina.


E na aduana em Porto Vera Cruz, o cenário encontrado foi de salas abandonadas e estrutura prejudicada.



O delegado regional de combate ao crime organizado da Polícia Federal, Sérgio Busato, informa que o foco do trabalho na fronteira é na área de inteligência, tecnologia, conhecimento e capacitação. "A gente tem essas delegacias estratégicas de fronteira, que fazem trabalhos regionais e às vezes nacionais".


Ele afirmou que, na superintendência, há áreas especializadas, como combate ao tráfico de drogas, de armas, ao contrabando, que atua contra o crime organizado. "Essa tem sido a estratégia para atuação de polícia judiciária, de investigação em cima dos grupos criminosos que usam a rota do Rio Grande do Sul para traficar armas, bebidas, drogas e esse tipo de produto ilícito".




Posto está com as janelas quebradas e completamente abandonado (Foto: Reprodução/RBS TV)


Reforço da Brigada e do exército para fiscalização


Sem o trabalho da Polícia Federal, é a Brigada Militar que entra em ação. Na região de Santa Rosa, os policiais apreenderam R$ 4 milhões em produtos contrabandeados na Região Norte, em um ano. "Praticamente a cada mil metros existe um pequeno porto informal que dá acesso para embarcações e através dos quais os contrabandistas fazem a entrada e saída de marcadorias", explica o capitão da Brigada, Vinícius Karnikowski.


O exército também reforça o combate ao crime. Uma operação realizada recentemente com a ajuda de 300 militares realizou 6 mil abordagens, segundo o general de exército Edison Leal Pujol.



"A gente consegue aumentar o número de apreensões, de ter material ilícito, mas isso não é o nosso principal objetivo, as vezes até o fato de impedir, de que nesse período que nós estamos trabalhando, diminua a entrada de material ilícito no nosso território, já é um ganho".



Pujol destaca que a falta de estrutura e investimentos são os princxipais fatores para fragilidade nas fronteiras. "Se nós tivéssemos capacidade, nós e os nossos órgãos que estão envolvidos tivessem efetivo, equipamento, tivessem disponibilidade orçamentária de aumentar o número de vezes e o período de atuação certamente os resultados seriam maiores".

CONTROLE PRECÁRIO. ROTAS ALTERNATIVAS BURLAM FISCALIZAÇÃO




Rotas alternativas são usadas no contrabando de mercadorias na região de fronteira do RS

Por Patrícia Porciúncula, RBS TV
Rotas alternativas são usadas para contrabando na fronteira do RS com o Uruguai. Beira da praia e estrada na zona rural seriam os pontos usados para burlar a fiscalização. Polícia Federal e Receita Federal apontam falta de efetivo como motivo para o controle precário.


Para burlar a cota máxima de 300 dólares, muitas pessoas que vão ao Chuí, na fronteira do Brasil com o Uruguai, no extremo Sul do Rio Grande do Sul, usam rotas alternativas para transportar mercadorias entre os países. O motivo é que quem chega do país vizinho precisa declarar os produtos na Receita Federal.


Até o sábado (9), uma série de reportagens vai mostrar a fragilidade da segurança nas linhas de fronteiras do Rio Grande do Sul. Na quinta-feira (7), foi relatada a entrada ilegal de mercadorias por Aceguá. Na última matéria, será apresentado como está o controle na divisa com a Argentina.


Contudo, nem mesmo nos feriados, quando o movimento de turistas em busca de compras nos free shops aumenta, a fiscalização é realizada. "Essa semana nós passamos três vezes ali e nenhuma das três vezes fomos abordados, nenhuma fiscalização na Receita", conta a doceira Bárbara Moura.


A reportagem da RBS TV passou pela aduana brasileira diversas vezes, em diferentes dias e horário, e em nenhum momento foi abordada. A Receita Federal admite que não tem conseguido fazer esse trabalho diariamente e um dos motivos é a falta de servidores. Segundo o auditor fiscal Cassius Garcia, 25 pessoas trabalham neste posto, mas o necessário seria o dobro.

"A abordagem existe, ela vem ocorrendo de forma aleatória por amostragem ou com uso de ferramentas de inteligência. O nosso efetivo nessa unidade foi reduzido em aproximadamente 60% nos últimos sete anos, os últimos concursos realizados já estão vencidos e não temos previsão de novos concursos", lamenta.


Quase 166 mil pessoas já passaram pelo posto de migração em 2017. Os meses de janeiro e abril foram os de maior movimento. Segundo a Polícia Federal, os crimes mais registrados na fronteira são tráfico de drogas e armas, evasão de divisas e lavagem de dinheiro, além do contrabando de mercadoria.



Uma das rotas usadas para desviar da fiscalização é a beira da praia da Barra do Chuí (Foto: Reprodução/RBS TV)


No entanto, as autoridades relatam que se controlar os veículos que passam na aduana já é difícil, a situação fica ainda mais complicada nos caminhos alternativos usados pelos contrabandistas. Um deles é pela beira da praia da Barra do Chuí, a 11 quilômetros da aduana principal. Outra rota utilizada é uma estrada que fica na zona rural do Chuy, no lado uruguaio.


Uma moradora que preferiu não se identificar relata que durante a noite é quando acontece o maior movimento. "De dia eu olho e são os vizinhos. De noite tem muito movimento de carro e de caminhão", diz.


A Receita Federal admite que os caminhos alternativos são rota de crimes. "A região tem diversos outros acessos, mas as nossas equipes estão sempre atentas. Se passar fora da rota principal, a mercadoria vai ser perdida não vai haver a possibilidade de efetuar o pagamento dos tributos e levar a mercadoria adiante como ocorreria se parassem na nossa unidade", alerta Garcia.


A Polícia Rodoviária Federal (PRF), que também poderia fazer a fiscalização, enfrenta dificuldade com o efetivo. "O nosso déficit de efetivo gira em torno de 50% nos últimos anos. No momento realmente estamos desempenhando as nossas atividades dentro das possibilidades", explica o chefe da PRF na região, Fabiano Goia.



Segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Rio Grande do Sul (Sinpef), Ubiratan Sanderson, o que falta é uma política de segurança pública voltada para as áreas. "A fronteira seca entre Uruguai e Brasil, considerando que o Uruguai também não tem uma politica rígida de segurança pública, somada ao abandono das entidades policiais brasileiras, vira, na verdade, uma terra de ninguém", afirma.


O delegado regional de combate ao crime organizado da Polícia Federal, Sergio Busatto, diz que o foco é a área de inteligência e a investigação de grupos criminosos que traficam armas, bebidas e drogas.



Efetivo da Receita Federal na região foi reduzido em 60% nos últimos sete anos (Foto: Reprodução/RBS TV)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

FRONTEIRAS SEM AGENTES, SEM POSTOS E SEM POLICIAMENTO


Nenhum texto alternativo automático disponível.

ZERO HORA 06/11/2017

Inspeção aponta falta de agentes e precariedade em postos de fronteira da PF no RS. Agentes federais percorreram 3,2 mil quilômetros durante cinco dias e visitaram 12 localidades onde estão situadas delegacias, postos avançados e Centros Unificados de Fronteira



Humberto Trezzi



Prédio da corporação em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, é velho e apresenta problemas de manutençãoDivulgação / Policia Federal


O Rio Grande do Sul é o Estado brasileiro com o maior número de postos de fronteira da Polícia Federal, em decorrência de sua localização estratégica. Nem por isso é bem guarnecido. Inspeção realizada pela diretoria da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) recentemente evidenciou a precariedade de instalações da PF, sobretudo no território gaúcho fronteiriço com a Argentina e o Uruguai. Os agentes federais percorreram 3,2 mil quilômetros durante cinco dias e visitaram 12 localidades onde estão situadas delegacias, postos avançados e Centros Unificados de Fronteira (onde PF e Receita Federal de países fronteiriços atuam juntas).


A conclusão é de que o RS é uma região extremamente porosa às toneladas de drogas que abastecem o mercado interno e alimentam a indústria do narcotráfico, ao contrabando, com a entrada e saída clandestinas de mercadorias proibidas (que concorrem com a indústria nacional), ao descaminho de mercadorias (responsável por valor inestimável de sonegação de impostos), ao livre fluxo de carros roubados, criminosos e foragidos de alta periculosidade e ao tráfico de animais silvestres.


— A fragilidade das fronteiras somente não é maior graças ao profissionalismo dos agentes, que se veem obrigados a se desdobrar para combater os crimes. Além das péssimas condições de trabalho, nas zonas fronteiriças também faltam boas condições de moradia, educação e saúde aos policiais federais e seus familiares — resume o presidente do Sindicato dos Policiais Federais/RS, Ubiratan Sanderson.


Sanderson foi um dos que realizaram a inspeção, junto com o presidente da Fenapef, Luis Antônio Boudens. Os dois responsabilizam a logística insuficiente na fronteira pelo ingresso de armamento que ajuda a explicar os 60 mil homicídios anuais ocorridos no Brasil, com aumento vertiginoso do poderio bélico dos criminosos.


A Fenapef representa hoje 15 mil policiais federais de todo o país. A direção da entidade pretende percorrer os 16 mil quilômetros de fronteira do Brasil com os países vizinhos. Já foram visitados, antes do RS, postos fronteiriços de Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Em território gaúcho, a inspeção não se limitou à fronteira. Foram visitadas unidades da PF em Pelotas, Rio Grande, Chuí, Jaguarão, Bagé, Aceguá, Santo Ângelo, Porto Xavier, São Borja, Uruguaiana, Quaraí e Santana do Livramento.
No posto de Quaraí, na fronteira com Uruguai, carros passam praticamente sem fiscalizaçãoDivulgação / Policia Federal


A falta de pessoal é uma constante. Além disso, a Fenapef constatou muitas delegacias com instalações inapropriadas, não tendo sido construídas para aquela finalidade específica. É o caso da Delegacia de Pelotas e do Centro Unificado de Fronteira de São Borja, segundo os sindicalistas. No Posto de Migração do Chuí, o espaço disponível foi cedido pela Receita Federal, também responsável pelo serviço de vigilância e limpeza. O mesmo ocorre no Posto Avançado de Porto Xavier e na Aduana em Uruguaiana.


Problemas de manutenção de estrutura física das delegacias também foram constatados, com casos até de alagamentos das salas de trabalho. O mobiliário muitas vezes é impróprio. Em alguns casos a mobília existente foi doada pelo Sindicato dos Policiais Federais. As sedes das delegacias de Rio Grande, Uruguaiana e Pelotas estão deterioradas.


— Colocam em risco não apenas os policiais federais, como também os cidadãos que procuram os serviços da Polícia Federal — enfatiza Boudens.


Plano Estratégico de Fronteira tem carências


Foram detectadas também deficiências dos equipamentos de comunicação, agravadas pela ausência de sinal de celular, um fator essencial que dificulta o trabalho e coloca os servidores plantonistas em risco, em casos mais urgentes. Os coletes balísticos são insuficientes para todos os servidores.


Boudens sugere que seja implementado, em sua totalidade, o Plano Estratégico de Fronteira. Ele prevê ampliação do número de servidores e criação de mecanismos de estímulo para que esses agentes policiais permaneçam nas fronteiras. Um desses projetos é a Indenização de Fronteira, criada pela Lei nº 12.855, de setembro de 2013, e pendente de regulamentação. Seria um auxílio financeiro aos agentes de postos fronteiriços.


Boudens considera fundamental também planos com atuações integradas no combate a crimes transnacionais nessas regiões fronteiriças. Elas abrangem 150 km de largura ao longo de 16.886 km de extensão terrestre. Envolvem 11 Estados, que têm limites com 10 países vizinhos (Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa).


Procurada, a Superintendência da Polícia Federal no Rio Grande do Sul não quis comentar a inspeção da Fenapef.

Raio-X da PF no RS






Porto Vera Cruz (fronteira com Argentina) - não há agente da PF no posto.


Porto Soberbo (fronteira com Argentina) - não há agente no posto.


Porto Xavier (fronteira com Argentina) - dois agentes, só de dia. À noite, fechado.


Porto Mauá (fronteira com Argentina) - dois agentes, só de dia. À noite, fechado.


São Borja (fronteira com Argentina) - no Centro Unificado de Fronteira (CUF, que mescla policiais brasileiros e argentinos), situado na cidade argentina de Santo Tomé, os agentes brasileiros trabalham desarmados e sem poder de polícia. A delegacia de PF, que poderia ser um possível reforço em caso de necessidade, está situada a uma distância de cerca de 10 km.


Uruguaiana (fronteira com Argentina) - os agentes são em número insuficiente (três) para atender aos milhares de turistas argentinos que adentram o país via Paso de Los Libres, com fluxo diário de até 30 mil pessoas na alta temporada. Trabalham 24 horas direto. Na cidade argentina são 15 os agentes da Gendarmeria.


Santo Ângelo - a delegacia tem hoje metade do efetivo existente há 15 anos (o total não foi revelado à imprensa).


Aceguá (fronteira com Uruguai) - o posto da PF, a 60 km de Bagé, está na iminência de ser fechado. Isso porque apenas um agente cuida do local, de dia, que possui cinco rotas de acesso ao Interior (uma BR e quatro rodovias vicinais). À noite, sem pessoal, o posto é fechado.


Chuí (fronteira com Uruguai) - apenas dois agentes em regime de plantão (24 horas, direto).


Jaguarão (fronteira com Uruguai) - apenas dois agentes em regime de plantão (24 horas, direto).


Quaraí (fronteira com Uruguai) - apenas dois agentes em regime de plantão diurno. À noite, sem pessoal, o posto é fechado. O fluxo de veículos e pessoas é praticamente livre para a cidade uruguaia de Artigas. Os plantonistas precisam emitir tarjetas de entrada e saída, emitir certidões de antecedentes criminais e confeccionar a carteira de estrangeiros.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A CORRIDA POR ARMAS PESADAS






HISTÓRIAS MAL CONTADAS


 

Carlos Wagner


A corrida por armas pesadas pelas quadrilhas tornou o Brasil um grande comprador do mercado mundial ilegal de fuzis, munições e explosivos.



A corrida por armas potentes para serem usadas na disputa por território e assaltos pelas organizações criminosas brasileiras colocou o Brasil em um lugar de destaque entre os países compradores no mercado ilegal de fuzis, munições e explosivos. A disputa é causada pelo crescimento e pelo aperfeiçoamento das quadrilhas, que é uma consequência do fracasso das políticas de segurança pública, consolidado nos últimos cinco anos.

As principais armas pesadas usadas pelos quadrilheiros são estrangeiras e, a maioria, entra no país pelo Paraguai. Enfileirar números sobre armas ilegais é pintar um quadro irreal para o nosso leitor, chamo a atenção dos meus colegas repórteres, principalmente dos novatos. Mas podemos recomendar ao leitor uma olhada atenta aos relatos feitos sobre o uso de armas por criminosos nos noticiários e nas redes sociais, que estão disponíveis na internet. E também sugerir que conversem sobre o assunto com seus amigos e vizinhos. Dificilmente, alguém não foi vítima ou teve um conhecido que foi assaltado. Nós podemos ajudar o nosso leitor a entender os motivos pelos quais chegamos a essa situação, mostrando como relacionar fatos, que foram publicados de maneira isolada. Mas que, se unidos, eles mostram o caminho que percorremos até aqui, onde um chefe de quadrilha influencia muito mais na vida cotidiana das famílias do que o prefeito da cidade.

Começamos no momento em que o estado brasileiro estava encurralando as quadrilhas. Foi de 1995 a 2011, quando as políticas brasileiras de segurança pública foram modernizadas e reorganizadas pelos governos dos presidentes da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB – SP) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT – SP). Aqui, é importante avaliar o seguinte. O bom desempenho do Brasil contra as organizações criminosas no período não pode ser atribuído apenas ao vigor da economia na época. Mas ele deve também ser analisado devido à presença forte do Estado em áreas de conflitos, por exemplo: em 2010, o senador paraguaio Robert Acevedo, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) sofreu um atentado à bala nas ruas de Pedro Juan Caballero, cidade do Paraguai separada do Brasil por uma avenida de Ponta Porã, no oeste do Mato Grosso do Sul. Dias depois do atentado, os então presidentes do Brasil, Lula, e do Paraguai, o bispo Fernando Lugo, se encontraram bem próximo ao local onde o senador foi ferido.

Eu estava no encontro de Lula e Lugo e documentei os dois presidentes baterem forte nas organizações criminosas da região. O que acontecia lá? Acossados pela instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas cariocas e pela presença maciça da Polícia Militar nas regiões de conflitos nas cidades paulistas, o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, fugiram para o Paraguai, onde consolidaram as suas operações. Na época, existia uma rede de troca de informações muito bem articulada entre as polícias brasileiras (Civil, Federal e Militar) com as Forças Armadas sobre tudo o que ocorria nas fronteiras do Brasil com os países vizinhos da América do Sul. Graças a essa rede de informações que as apreensões de drogas, armas e contrabando de cigarros da Polícia Rodoviária Federal (PRF) eram abundantes – os números podem ser encontrados na internet.

Na primeira oportunidade que tiveram, as organizações criminosas voltaram. E a volta não deve ser atribuída apenas à atual crise econômica. Mas há problemas estruturais que não foram resolvidos, como é o caso do sistema penitenciário do Brasil, um dos mais eficientes formadores de soldados para o crime. Atualmente, as facções comandam das cadeias no país – há uma vastidão de informações nos noticiários e nas redes sociais na internet. Aqui, uma coisa importante: um livro-reportagem, “Fronteiras Abertas”, de Rafael Godoi, jornalista, e Sérgio de Castro, analista-tributário da Receita federal. O livro foi editado em 2010, pelo Sindicato Nacional dos Analistas Tributários da Receita Federal do Brasil (Sindireceita) e está disponível na internet. O trabalho é um documento que mostra a situação das carências de estrutura e pessoal nos postos das fronteiras. E o que poderia acontecer no futuro se os problemas não fossem resolvidos nas fronteiras com Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa. Os noticiários confirmam o que foi previsto.

O livro recomenda que os planos de fronteira sejam feito em parceria entre os governos. Aliás, sobre parcerias, há vários estudos feito pelo Grupo Retis, formado por um prestigiado contingente de cientistas sociais do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como os governos não fizeram as parcerias, os criminosos as colocaram na prática. Hoje, os bandos que roubam carros no Brasil os trocam por armas e drogas no Paraguai, na Bolívia e na Colômbia. O PCC e o CV estão envolvidos em uma disputa para ocupar o lugar dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que estão sendo desmobilizados devido ao acordo de paz com o governo. Uma das atividades dos guerrilheiros é a proteção dos cartéis de produção de cocaína.

As organizações regionais, como Os Manos e os Bala na Cara, do Rio Grande do Sul, e a Família do Norte (FDN), do Amazonas, estão fazendo alianças com os atacadistas de maconha do Paraguai. Trocam droga por munição com grupos de varejistas de cocaína e maconha no Uruguai e na Argentina. Enquanto isso, um policial, para prender um bandido do outro lado da fronteira do seu país, precisa percorrer um imenso caminho burocrático. Ou contar com a colaboração pessoal de um colega. Hoje, a questão de segurança pública do Brasil tem como nó o sistema penitenciário. Aliás, eu recebi uma observação feita por um policial da fronteira do Mato Grosso do Sul, que diz o seguinte:

– Agora que os bacanas indo para a cadeia, pode ser que eles resolvam o problema do sistema penitenciário em proveito próprio kkkkkkk. O que acha, Wagner?

Respondi:

– Tem lógica, né?





COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - As armas de guerra são colocadas nas mãos dos bandidos devido às penas penas brandas aplicadas pela venda, compra, posse e uso de armas de calibre restrito e as adulteradas; pela porosidade das linha de fronteiras despoliciadas por onde passam as armas, munições e drogas que abastecem o crime dentro do Brasil. As ações de contenção na lei são permissivas; na justiça há muita lerdeza e leniência; na polícia federal há sobrecarga de trabalho e falta de efetivos para o patrulhamento e vigilância das linhas; a execução penal é irresponsável e tem soltado chefes de facções que hoje lideram o crime nas fronteiras; as forças armadas se limitam às operações midiáticas e sem a força do poder de polícia; e os governantes insistem em medidas paliativas usando policiais estaduais para cumprir missão específica federal. 







Alberto Afonso Landa Camargo - Não só pelas penas brandas que as armas são colocadas nas mãos de criminosos, mas também pelo descaso com as fronteiras, abertas e abandonadas, onde deveriam estar a polícia federal e o exército, a primeira por obrigação constitucional e o segundo por obrigação prevista em decreto federal que lhe deu esta atribuição. Estas armas e munições que entram livremente pelas fronteiras abandonadas são os instrumentos que matam policiais, em especial militares, e outras pessoas inocentes. São as que expelem as "balas perdidas" que matam e mutilam crianças indefesas. Chama a atenção que normalmente a culpa da criminalidade é atribuída à falta de policiamento, mas ninguém lembra que a culpa é também de quem deveria estar policiando as fronteiras e não está.

sábado, 3 de junho de 2017

ATACAR OS CRIMES DE FRONTEIRA

Resultado de imagem para delegado Ricardo Andrade Saadi

ZERO HORA 03 de junho de 2017 | N° 18862


ENTREVISTA: Delegado Federal RICARDO ANDRADE SAADI


“Temos de atacar os crimes de fronteira”




Combater lavagem de dinheiro é a baliza da bem-sucedida carreira do delegado Ricardo Andrade Saadi, novo superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. Natural que o combate a esses e outros tipos de delitos de “colarinho branco” sejam sua prioridade na gestão, a primeira de sua carreira chefiando a PF num Estado.

– O Rio Grande do Sul tem peculiaridades como o contrabando e o tráfico, por ser Estado de fronteira, mas vamos dar atenção especial aos crimes financeiros – adianta Saadi, que tomou posse na sexta-feira.

Paulista, 41 anos, o delegado é formado em Direito e Economia e doutor em Direito Político e Econômico. Na sua tese, abordou a destinação dos bens apreendidos com criminosos e a necessidade de agilizar esse processo – inclusive dinheiro enviado à educação de presos –, antes que os objetos apodreçam sem uso.

Saadi é da nova geração de policiais. Ingressou na PF, já como delegado, em 2002 e foi direto trabalhar contra crimes financeiros, em São Paulo, quando o superintendente era o gaúcho Leandro Daiello, hoje diretor-geral da PF. Fez curso no FBI (polícia federal dos EUA) e participou de episódios famosos: prendeu o dono do Banco Santos por lavagem de dinheiro, refez o inquérito da Operação Satiagraha (que capturou o banqueiro Daniel Dantas), investigou lavagem de dinheiro pelo traficante colombiano Juan Carlos Abadia (preso no Brasil e suspeito de mais de cem homicídios) e atuou na Lava-Jato. Nesse último e famoso caso, atuou como chefe do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça, onde permaneceu até o início de 2017.

Foi na convivência com policiais gaúchos, em São Paulo, que adquiriu o hábito de tomar chimarrão. E foi entre goles do amargo que recebeu Zero Hora para uma entrevista, realizada na quinta-feira em seu novo gabinete em Porto Alegre. Apesar do gosto pelo mate, não é gremista e nem colorado: é são-paulino, avisou, em meio a sorrisos dos assessores.

Veja os principais pontos abordados na conversa

LIÇÕES DA SATIAGRAHA

“Convivi muito com o Protógenes Queiróz (delegado que prendeu o banqueiro Daniel Dantas por movimentação financeira oculta e, posteriormente, caiu em desgraça na PF – o policial foi condenado e hoje está foragido). Uma das lições daquele episódio é o de saber o momento certo de deflagrar uma operação e ter elementos concretos. Não se pode agir com pouquíssimas provas. Baseado apenas em um HD apreendido, por exemplo. Aprendemos muito com aquele inquérito, conseguimos coisas boas.”

RASTREAMENTO DE DINHEIRO SUJO

“Antes dos anos 2000 não existia o Cadastro Único dos Correntistas do Banco Central. Quando precisava saber onde alguém tem conta, mandava um ofício para cada instituição financeira e esperava meses, por exemplo. Hoje, graças a convênios entre instituições de controle do sistema financeiro, consigo a informação na mesma hora. O mesmo acontece com a quebra de sigilo bancário: antes eu trabalhava numa sala recheada do chão ao teto por planilhas Excel com extratos de contas. Agora recebo isso online e, mediante determinados programas, identifico padrões de saque bancário do suspeito, remessas, etc. A PF, aliás, tem laboratórios técnicos de lavagem de dinheiro, um deles montado por iniciativa própria no RS e equipamentos comprados.”

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

“A legislação determina que o dinheiro de lavagem só seja devolvido após trânsito em julgado (condenação do réu em última instância). Mas ocorreram duas mudanças, para melhor. A primeira é que, via colaboração premiada, delatores têm autorizado por escrito ao governo a devolução de dinheiro que eles mantêm no Exterior (Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, devolveu US$ 100 milhões mediante acordo). A outra é que os próprios países onde o dinheiro foi colocado têm aberto investigações contra os criminosos brasileiros que lá escondem o fruto do desvio da verba pública. É o caso de dinheiro desviado por um juiz durante a construção do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) paulista e da Operação Anaconda (venda de sentenças por parte de outro magistrado). A Suíça abriu processo contra os brasileiros envolvidos e devolveu parte do dinheiro lavado em seus bancos pelos criminosos, antes de os processos no Brasil serem finalizados. Isso foi impulsionado pela cooperação internacional, sobretudo após os atentados de 11 de Setembro de 2001 (em Nova York).”

META PARA O RS

“Nosso objetivo é manter o ótimo trabalho que tem sido feito. O Estado tem peculiaridade de ter muitas fronteiras, então temos de atacar todos os crimes típicos de fronteira, como tráfico de drogas, tráfico de armas e contrabando, e dar atenção especial aos crimes de desvio de recurso públicos, crimes financeiros e de lavagem de dinheiro. O Rio Grande do Sul foi o Estado que mais operações da PF teve em 2016: 71. Queremos manter a performance e, para isso, pedimos um estudo de efetivos policiais, para direcioná-lo aonde for melhor.”

LAVA-JATO NO RS

“Está chegando em novo estágio em que os procedimentos estão sendo distribuídos a diversos Estados. O Rio Grande do Sul, assim como outros Estados, vai receber esses procedimentos. Nós temos uma equipe extremamente qualificada, que está pronta para resolver essas investigações da melhor forma possível.”

REFLEXOS DA LAVA-JATO PARA O PAÍS

“Está sendo extremamente positiva. Tem demonstrado que as instituições brasileiras funcionam, a Polícia Federal, o Ministério Público, a Receita Federal e outras. As delações geraram uma demanda exponencial de investigações. E tem sido positivo para o país ver esse trabalho.”

domingo, 12 de março de 2017

FRONTEIRA AMAZONICA VIRA PASSAGEM LIVRE DE DROGAS







FOLHA.COM -  Fronteira amazônica vira passagem livre de drogas com presença de facção

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A TABATINGA (AM)12/03/2017 02h00




O massacre de dezenas de presos protagonizado pela facção criminosa Família do Norte (FDN) em Manaus, no Ano-Novo, gerou uma onda de mortes e tensão em diversas penitenciárias do país.
Mas, na principal porta de entrada de cocaína para o Norte e Nordeste, o presídio local permaneceu quieto, sob controle dessa mesma facção.

Em Tabatinga, cidade de 62 mil habitantes na tríplice fronteira com Peru e Colômbia, autoridades policiais e judiciais admitem que a FDN comanda tanto o presídio quanto o fluxo de drogas para o Brasil, um negócio que movimenta R$ 5,7 bilhões por ano, segundo estimativa do governo do Amazonas.

"Se a Família do Norte, a única facção que domina aqui, decidir que precisa haver algum incidente em Tabatinga, esse incidente ocorrerá", afirmou a juíza estadual Danielle Monteiro, na cidade há um ano e cinco meses, durante um encontro para discutir a segurança pública com representantes militares, policiais e judiciais.

A forte presença da FDN em Tabatinga, pelo menos desde 2014, é o mais novo capítulo de quase quatro décadas de narcotráfico na região, período em que se tornou a principal atividade econômica da fronteira.


A história começou no início dos anos 1980, quando a chamada região do Trapézio Amazônico se tornou um importante corredor da coca peruana à Colômbia (da era Pablo Escobar) para o refino e envio aos EUA.

Em meados dos anos 2000, houve mudanças importantes. A Colômbia, com financiamento americano, conseguiu retomar o controle da maior parte do território, como a região fronteiriça, e reduzir a violência.

No lado peruano, uma nova tecnologia permitiu o cultivo e o processamento da coca na umidade amazônica a partir de 2006. E o Brasil, antes de importância marginal, passou a ser o principal destino da droga produzida e transportada na região da tríplice fronteira.

Apesar do desafio logístico -o acesso à tríplice fronteira se dá apenas por avião ou barco-, o narcotráfico se beneficia da economia informal, da intensa circulação de pessoas entre os três países, das diversa rotas fluviais disponíveis, da ausência do Estado no lado peruano e de grandes falhas de fiscalização no território brasileiro.

Unida à colombiana Leticia pela fronteira seca, Tabatinga vive na informalidade. Sem Detran, cerca de 90% das 15 mil motos que circulam pela cidade não têm nenhum registro, segundo a Polícia Militar.

Na Justiça estadual, tramitam em Tabatinga 2.752 processos criminais, com 751 condenações, em uma cidade em que o presídio tem capacidade para 108 pessoas.


INSUFICIÊNCIA


Integrantes das equipes de segurança brasileiras na região da tríplice fronteira reconhecem sua insuficiência diante do aumento da criminalidade organizada.

O principal posto de fiscalização fica em um trecho do rio Solimões a cerca de 40 km de Tabatinga. Trata-se de uma força multitarefa, com a presença permanente de 33 pessoas, entre PMs, soldados do Exército, policiais civis e agentes da PF, responsáveis pela coordenação.

A principal tarefa ali é uma minuciosa inspeção em todos as embarcações que descem o rio na direção de Manaus. Mas a base, estática, é facilmente contornável pelos braços de rio ("furos"), principalmente na cheia.

Além disso, a presença da base deslocou o narcotráfico para outros rios que vêm da Colômbia e do Peru, principalmente o Içá, hoje o principal corredor.

No dia em que a reportagem da Folha visitou a base, a balsa do Exército, que deveria ficar na outra margem, estava anexada à da PF por falta de combustível para o gerador elétrico. Tampouco havia barcos blindados de patrulha: o único que a PF mantém na região estava parado havia um ano.

"A gente teria de ter duas embarcações blindadas e um maior efetivo policial", disse o agente da PF Rosimar Sena, em entrevista na base Anzol. "São muitos 'furos', tem de dar sorte de estar passando na hora certa. Mas aqui se pega o mínimo de droga."

Das 3,5 toneladas de cocaína apreendida pela PF no Amazonas no ano passado, 600 kg foram confiscadas na região de Tabatinga.

"A base Anzol, para quem é do mundo criminoso, não deixa de ser motivo de piada", disse o comandante da PM em Tabatinga, Huoney Herlon Gomes. "É boa como presença do Estado, mas inócua como ação efetiva."

Editoria de arte/Folhapress



sábado, 9 de julho de 2016

QUADRILHA FACILITAVA O CONTRABANDO



ZERO HORA 09 de julho de 2016 | N° 18577




Por decisão do ministro Félix Fischer, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a sentença condenatória de 2009 contra (...) Ishii, o Japonês da Federal, foi mantida, em despacho de março de 2016.

Em 2003, a Operação Sucuri investigou uma quadrilha formada por agentes da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal que facilitavam o contrabando de produtos ilegais na fronteira do Paraguai com Foz do Iguaçu, no Paraná. Ishii estaria envolvido com a trama. Ele e outros dois agentes, diz o processo, teriam se omitido de fiscalizar veículos cujas placas eram informadas previamente por intermediários.

Ishii já sofreu outro revés: em 14 de novembro de 2013, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que ele e outros nove servidores da PF retornassem à ativa. Eles haviam se aposentado com a contabilização indevida de tempo de serviço.

Por ironia do destino, Ishii regressou ao trabalho em março de 2014, poucos dias antes da eclosão da primeira fase da Operação Lava-Jato.

QUATRO ANOS E DOIS MESES DE RECLUSÃO

Pouco antes de o STJ manter a sentença de Ishii, ele já havia sido removido da tarefa de conduzir presos. A tornozeleira não permite que use os coturnos pretos da PF. Em tarefas administrativas, trabalha na superintendência das 8h às 18h, com obrigatoriedade de dormir em casa. Aos finais de semana, precisa ficar recolhido.

Embora esteja mais longe das câmeras, não está se escondendo. Recentemente, prestigiou, em Curitiba, lançamento de livro sobre a LavaJato, de autoria do jornalista Vladimir Netto, onde encontrou Moro e investigadores. O Japonês da Federal foi um dos mais assediados.

Advogado de Newton Ishii, Oswaldo Loureiro Junior informa que a sanção do seu cliente é de quatro anos e dois meses de reclusão em regime semiaberto. Com o expediente da progressão após o cumprimento de um sexto da penalidade, Loureiro acredita que Ishii estará no regime aberto em mais quatro meses e confirma que o cliente está próximo da aposentadoria.



Fim de carreira nada glorioso para o Japonês da Federal

CARLOS ROLLSING


FIGURA FAMOSA DA LAVA-JATO, o agente agora usa tornozeleira eletrônica e está prestes a se aposentar

Segundo rosto mais popular da Operação Lava-Jato, o agente Ishii, ou simplesmente o Japonês da Federal, conheceu a fama ao conduzir, diante de câmeras, poderosos e bilionários presos. Agora, encaminha-se para um final de carreira menos glorioso.

Depois de funcionar como uma das engrenagens de marketing da investigação mais rumorosa do país, Ishii teve condenação por corrupção e descaminho confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ele usa tornozeleira eletrônica, foi restringido a serviços burocráticos e já não é mais visto ao lado de alvos da Lava-Jato, com seus cabelos grisalhos e óculos escuros de lentes grandes e design moderno. Colegas de Polícia Federal (PF) dizem que um dos símbolos da investida contra o crime que mudou o Brasil está a caminho da aposentadoria.

A cada nova fase, surgiam mais personagens da corrupção na Petrobras. Invariavelmente, um agente de traços asiá­ticos fazia a condução dos detidos para exames no Instituto Médico Legal (IML) ou audiências na 13ª vara da Justiça Federal de Curitiba (PR), base do juiz Sergio Moro, o número 1 da Lava- Jato. De tanto ser visto na condição de representante da lei, com a custódia de corruptos e corruptores, Ishii passou a ser associado a princípios como ética, combate ao crime, fim da impunidade e justiça. Caiu no gosto popular e tornou- se garoto-propaganda da investigação.

ISHII SOUBE SE PROJETAR, DIZ CONSULTOR EM MARKETING

Descrito como um sujeito simpático, Ishii virou fenômeno nacional, inspirou máscaras de Carnaval, bonecos de Olinda e passou a ser alvo de milhares de buscas na internet. No Google, basta escrever “Japonês” para, de imediato, vir a sugestão de complemento: “da Federal”.

“Ai, meu Deus, me dei mal, bateu à minha porta o Japonês da Federal”, diz o refrão da marchinha composta em homenagem ao agente. Um filmete de menos de quatro minutos publicado no YouTube também faz referência em tons ficcionais. Nas imagens, o Japonês troca tiros e vence bandidos, explode o Congresso e protagoniza violentas cenas de ação, em uma mescla de Jackie Chan, Rambo e Matrix.

Em 2004, no artigo Considerações sobre a Operação Mani Pulite, referência à investigação que desmantelou esquemas de corrupção na Itália, Sergio Moro já destacava a comunicação – e o marketing, de quebra – como um dos pilares para o sucesso de uma grande operação.

Para o doutor em Direito e advogado criminalista Lúcio de Constantino, defensor de suspeitos na Lava-Jato, o Japonês funcionou como uma linguagem simplificada que despertou simpatia.

– A figura do Japonês ingressa como um símbolo nas camadas mais populares e isso, de certa forma, foi um elemento pedagógico. Ele traz um conceito superficial para aquelas pessoas que não conseguem ter uma ideia mais complexa desse universo criado em torno da Lava-Jato – opina Constantino.

Juliano Corbelini, consultor em marketing político, avalia que Ishii não está entre as chaves do sucesso de crítica da Lava-Jato. Ele entende que o agente virou um dos rostos da operação porque soube se projetar:

– A exposição das prisões é parte da estratégia da Lava-Jato. Isso é perceptível. Aí, gerou essa janela de aparecer sempre a mesma figura fácil de ser reconhecida. Ele aproveitou a janela.

Se Moro é a imagem maior da Justiça na Lava-Jato, Ishii ganhou fama por supostamente ser o executor das prisões de políticos, empreiteiros e operadores financeiros. Tanto que a marchinha de Carnaval e o filmete citam de forma atemorizadora que o Japonês da Federal “baterá à porta” de corruptos. Delegados e procuradores da República, os verdadeiros investigadores, ficaram em segundo plano no imaginário popular. Isso, garantem, não chegou a causar ciumeira, mas houve reações desgostosas.

O Japonês jamais cumpriu mandado de prisão da Lava-Jato. Nunca bateu à porta dos suspeitos. Lotado no setor operacional da superintendência da PF em Curitiba, seu papel era conduzir os presos à Justiça e ao IML, ocasião em que fotógrafos e cinegrafistas conseguiam se aproximar para fazer as melhores imagens.

– Não nos surpreendeu (a condenação no STJ). Ele foi condenado pela investigação que nós mesmos fizemos em 2003. Mas deve ter surpreendido o povo que vê nele a imagem de alguém da Lava-Jato, quando, na verdade, nunca participou de qualquer ato da investigação – diz um delegado que atua no caso.